Ricardo Moura

Homem Moderno: Uma busca infinita por si mesmo.

Ao fazer uma análise da sociedade, percebe-se o homem contemporâneo submerso num vazio existencial e na busca de preencher a lacuna de seus desejos, sua identidade, seu lugar na existência, se depara com o sofrimento, que se manifesta como sofrimento psíquico, que é uma forma que o corpo tem em responder a essa angústia existencial, essa síndrome que é uma mistura de angustia, tristeza, apatia e a busca por si mesmo, que por vezes é manifestado através da depressão.

O ser humano no desespero em se encontrar, questiona a eficácia da terapia, pois, a urgência em ter-se novamente, acelera a sua procura pela psicofarmacologia, ao invés da análise. O humano pós-moderno, acelerado pelo tempo, depositam-se suas esperanças existenciais em: curandeiros, videntes, feiticeiros e etc. Na ânsia de se encontrar o ser se lança numa busca infinita por si mesmo, e isso acarreta ao sujeito a sensação de derrota, e frustação, por isso, a imersão na desesperança. Nessa lamúria existencial o humano, recorre na celeridade as respostas para sua vida, e submergem nas drogas, na religiosidade, na busca de um corpo perfeito, tudo isso na procura da felicidade.

A angústia pelo encontro é a manifestação da saudade do sujeito por si. Tanto caminho acelerado e percorrido em busca de si mesmo, o humano sente-se deprimido por não se encontrar, recorre aos remédios, ou as crendices supersticiosas a procura, não o encontrando deposita seu “encontro” nas drogas, que garantem provisoriamente a sensação de encontro consigo. O humano nesse enfraquecimento de sua personalidade recorre aos vícios sua confiança. Segundo Roudinesco, no futuro quais medicamentos serão necessários para curarem os novos vícios? Pois o humano está substituindo uma droga e um vício pelo outro, o homem, continua nessa busca existencial por si mesmo, por não se encontrar se distancia do encontro consigo, pode-se questionar, dentro em breve, a psicanálise só interessará a uma faixa cada vez mais restrita da população. Porventura não haverá senão psicanalistas no divã dos psicanalistas?" (Jean-Bertrand Pontalis).

Para Roudinesco com o advento dos psicotrópicos, esse modelo veio como que “maquiar” as paisagens da loucura. Os psicotrópicos trouxeram aos manicômios o esvaziamento, porém, os humanos anestesiados por reações medicamentosas perderam o humor, vontade de viver, e evitado de suas paixões. Obvio que a psicofarmacologia é eficaz, foi quem deu a voz e a liberdade aos considerados loucos, com o advento dos medicamentos, o comportamento humano é “controlável”, em contrapartida, a busca pela significação, a causa da existência da angustia, os psicotrópicos são incapazes de devolver ao humano. A farmacologia na pretensão alienante de curar as lamúrias existenciais deu ao homem a falsa sensação de cura. Dentro dessa lógica temporal, onde o sintoma é "destruído" muito rapidamente, a psicanálise vai progressivamente ficando de lado nas intervenções clínicas. As pessoas sentem que suas crises podem ser atacadas sem processos longos de analise pessoal, basta alguns medicamentos e a doença vai embora.

A farmacologia acreditando copiosamente em seus medicamentos, não consegue abordar o humano amplamente, como a psicanálise. As fobias, psicoses, neuroses, depressões, são tratadas pela farmacologia como simplesmente frutos de estados ansiosos, crises e nervosismos extremos e etc. Para Roudinesco esse é um sintoma da pós-modernidade, a entrega voluntária as substancias químicas ao invés de enfrenta-los e assumi-los. Pois a contemporaneidade quer apagar de dentro do homem sua liberdade é sua capacidade de encontrar-se consigo. O homem sujeito da insatisfação medicamentosa, atormentados pelos laboratórios fica as margens de sua descoberta existencial, completamente incapaz de assumir outra postura senão submeter a substancias químicas.

A psicanálise quando bem conduzida, traz ao humano o conhecimento de sua existência. Segundo pesquisas, foi avaliada a eficácia das psicoterapias, porém, não foi comprovada a ineficácia da psicanalise em relação aos outros tratamentos. A psicanálise é ainda atacada, por ter conquistado o mundo através da experiência subjetiva, pois ela coloca no centro da condição humana, a alma, o inconsciente e a sexualidade. A psicanalise resistiu os percalços da existência, mesmo combatida pelos modelos de pensamentos desenvolvidos pela psiquiatria. Segundo Roudinesco, a psiquiatria dinâmica advinda da medicina é um conjunto de escolas que trabalham as doenças da alma, essas escolas trouxeram um novo tratamento psíquico, que de forma dinâmica entre o doente e o médico, haveria uma relação transferencial.

No século XX com Pinel, essas escolas e correntes, sofreram algumas restrições com a chegada do pensamento pineliano, onde para ele, os loucos sendo privados de liberdade, ficaram ainda mais agitados, impossíveis e intratáveis. Assim com a Revolução pineliana, que abrangeu a visão sobre a loucura, onde estes não seriam vistos como insensatos, alienado, mas estranho a si. Para Pinel a loucura tornou-se uma doença. E para isso foi criado os manicômios, e hospitais psiquiátricos, que mais tarde, foi dado outra roupagem para o pensamento pineliano, foi criado por Esquirol o modelo de asilos. A alma humana não pode ser tratada como uma coisa, como estava sendo vista pelas correntes e escolas de psiquiatria dinâmica.

Por conseguinte, o humano não quer mais ouvir falar de culpa, nem de consciência e desejos. Portanto, como que um fugitivo de si mesmo, se distancia de sua subjetividade. O humano passa a não ser o responsável pela sua vida e suas consequências. A psiquiatria dinâmica perde seu espaço para o sistema comportamental. Com isso surge uma visão limitada do humano e de sua concepção dentro da sua visão universal e particular. A farmacologia já era prevista por Freud como a principal mentora da aniquilação do saber psiquiátrico. A psicofarmacologia trouxe ao homem a sensação de cura. Com o surgimento do DSM em 1952, onde foi abandonada toda concepção de homem e doenças adquiridas pelas psicanalise. Para o DSM as terminologias foram modificadas, abolindo até mesmo a concepção de doença. Todas as terminologias sendo modificadas, distanciando ainda mais o homem de assumir sua existência. Os conceitos de psicose, neurose e perversão, numa visão simplista foram chamados de desordem/ distúrbios.

Assim com o desmembramento dos modelos, que permitiram a psiquiatria ter uma visão de uma teoria do sujeito, teve que separar da psicanálise O surgimento das psicoterapias pode levantar a questão, juntamente com Roudinesco, “se o século XIX foi realmente o século da psiquiatria, e se o século XX foi o da psicanálise, podemos perguntar-nos se o próximo não será o século das psicoterapias?”.

Obviamente não que a autora desclassifica as psicoterapias, ela compreende como importantes, porém, somente a psicanálise que foi capaz de desde sua origem, assumir uma síntese das quatro grandes modelos da psiquiatria dinâmica capaz de explicar a loucura e doença psíquica.

Ricardo Moura – Graduando em Psicologia do Centro Acadêmico Alves Faria 

Ricardo Moura
  • Ricardo Moura Estudante de Psicologia
  • Graduando em Psicologia pelo Centro Universitário Alves Faria. Atualmente trabalha na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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