Ricardo Moura

SOU UM POEMA INACABADO: RELATOS DE EXPERIÊNCIAS ENTRE UM MÉDICO E UM ESTUDANTE DE PSICOLOGIA

O que na sua vida ainda precisa ser fechado? Muitas pessoas trazem de sua infância feridas não cicatrizadas, dores existenciais que ardem o peito, de um caminho sofrido e doloroso. Momentos necessitados de confirmação. Tantas existências gritando por uma postura dialógica que "presentifique” seu ente no aqui e agora. Dores existenciais quando não confirmadas traz ao ente humano a “quebra” de ser quem se é. As partes vão levando a cor de ser um todo. A dor daquilo que ainda não encerrou doí como uma navalha de dois gumes. Nessa relação dialógica entre o passado e o futuro esquecemos o presente. Para o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard diante da vida há várias opções possíveis, uma delas é a liberdade. A liberdade traz ao humano o medo diante das opções de decidir. Existencialmente não se desespera pelo existir, mais pelas inúmeras possibilidades de escolhas. O humano tem medo de lidar no mundo com a angústia advinda do pavor diante do decidir. Ele vive na profunda tentativa de escapar, não das possibilidades, mais do que lhe causa angústia. Na aparência do não saber decidir, ele foge de si mesmo. Por não saber lidar com o passado e com medo do futuro o sujeito sofre as lamúrias existenciais. A não “presentificação” das dores existenciais traz sofrimento e desespero. O humano vive nesse empasse entre o existir e o decidir isso o angustia, o amedronta por isso ele foge dele mesmo. A existência humana necessita sempre da confirmação existencial, pois não suporta as incompletudes que a faz ser. O existir exige do humano o contato com aquilo que o falta, porém é convidado não ficar só com o que lhe falta mais com o que possui. E o que ele possui são as possibilidades de recomeçar sempre. O recomeço traz o humano a aurora para aquilo que lhe causava solidão e medo. O sol do dia que surge é o novo ciclo de decidir ser novo. Como nos orienta Sartre:

"(...)o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo."

A dor longe de ser somente uma resposta fisiológica, uma sensação desagradável gerada por estímulos externos também tem gênese interna, esta seria a dor não sentida, mas sim vivida! Viver com esta dor nos leva a uma cronicidade da mesma. Abramos as portas, as janelas e deixemos que ela escape e nos jardins da nossa existência brinque e faça a experiência da metamorfose (dor-alegria). Vivamos os contrários da nossa inexorável condição de ser gente. Essa experiência da dor me faz lembrar um episódio que vivenciei logo no meu primeiro emprego como clinico geral e médico de família num lugar ermo do Brasil... Já era no turno da tarde e uma jovem mulher adentra meu consultório para consultar. Pensei que seria uma consulta como tantas outras de rotina, acompanhamento, educação em saúde, prevenção e promoção. Nesta consulta tive a certeza que a cura começa de dentro pra fora, que perdoar também faz parte do processo saúde-doença. Esta jovem vinha há mais de 20 anos sendo tratada de uma suposta doença somática e que ao final com a simples possibilidade de uma escuta ativa e de ser aconselhada, acolhida, respeitada, olhada nos olhos de forma afetuosa e demorada, descobriu que sua doença era a doença do século, a doença da indiferença humana. A partir de uma anamnese cuidadosa, sentida e atenta, identifico a origem das suas intermináveis dores de cabeça intratáveis, Gastrites, insônia, ansiedade. A gênese de tudo era um velório inconcluso que ela vivia, pois enfrentava um luto patológico com a perda da sua mãe. Após ter sentido a dor do outro e ter sido paciente junto com minha paciente, decidi retirar o Diazepam, Omeprazol, Dipirona. De inicio sim houve uma resistência. A paciente exclamou com um olhar desconsolado e despossuído de qualquer coisa: “Mas Dr. O senhor esta louco”? Não posso viver sem esses medicamentos! Com calma e um sorriso lhe tomei pela mão e lhe convidei a passear pelos jardins de si mesma e deixar que o enterro de sua mãe acontecesse, pois o velório ainda estava ali. Falei-lhe então: “Deixe que a vida continue! Desfaça as amarras que lhe impedem que a vida siga seu processo infinito de construção, pois somos seres para o “ainda não”, pois o destino de todo morto é ser enterrado. Façamos o enterro dele? Tenha calma, não estou lhe convidando a lançar quem você muito amou e morreu no esquecimento. Muito pelo contrario, estou lhe convidando a dar “vida ao morto”, pois permitir que quem morreu encontre seu lugar entre os mortos é deixar que ele ressuscite em nós. Sem delongas a paciente contestou: “Não posso! Pergunto-lhe: “Por que não?” A paciente já com lagrimas nos olhos me responde: “Quando minha mãe morreu estávamos brigadas e não pude lhe perdoar e nem despedir-me dela” Perguntei: “ E o que seria possível para que você a perdoasse? Respondeu já com lágrimas nos olhos e concluiu dizendo: “Faz exatamente hoje 5 anos que não vou ao seu túmulo!”Ainda com minha mão sobreposta a dela lhe convidei a ir ao seu túmulo... Ela ainda com lágrimas abriu um sorriso meio desconfiada e me perguntou: “ Mas Dr. o senhor não tem nada a ver com isso, por que faria isso por mim?” Então lhe respondi: “ De fato não tenho nada a ver com isso, mas tenho muito a ver com sua saúde!”Sem hesitar retirei o jaleco e a tomei pela mão, peguei o carro e fomos ao cemitério. O caminho foi um silêncio fúnebre. Não trocamos uma só palavra dita, mas sim palavras feito gestos. Ao entrar no cemitério lhe falei: “Aqui esta sua cura, perdoe!” Aquela mulher se lançou sobre o túmulo de sua mãe em prantos, seus dedos cavavam a terra como um garimpeiro escava o solo a procura de tesouro, e eu de lado sorrindo! Agradeci a Deus por aquele momento, pois entendi que um bom médico por mais conhecimentos, especialidades, títulos, técnicas, se não for especialista em gente tudo é em vão, pois um médico que sabe só de medicina, nem mesmo de medicina ele sabe. Este é o desafio da medicina moderna, e da ciência moderna, a de preparar profissionais especialistas em Gente

Igor Moreira Nascentes – Clínico Geral – Especialista em Medicina Familiar

Ricardo Moura – Graduando em Psicologia 

Ricardo Moura
  • Ricardo Moura Estudante de Psicologia
  • Graduando em Psicologia pelo Centro Universitário Alves Faria. Atualmente trabalha na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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