Ricardo Moura

Quem Sou? Como Sou? Fenomenologia e Marginalizações Existenciais baseado na leitura de Edmund Husserl.

Considerando a etimologia a palavra marginal, segundo o dicionário, significa “aquele que está localizado à margem de... ou que segue o contorno, a borda de...” Sobre a fenomenologia movimento filosófico inaugurado por Husserl, significa o deixar vir a ser, um retorno as coisas mesmas, o vir a margem para aparecer ao ser, “ a fenomenologia é a doutrina universal das essências, em que se integra a ciência da essência do conhecimento” ( Husserl, pág. 22), processo de intencionalidade da consciência, que é de tomada de consciência de alguma coisa, uma investigação das coisas como são. O princípio de intencionalidade é que a consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, que ela só é consciência estando dirigida a um objeto. Por sua vez, o objeto só pode ser definido em sua relação à consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito. Isto não quer dizer que o objeto está contido na consciência como que dentro de uma caixa, mas que só tem seu sentido de objeto para uma consciência (DARTIGUES, 2005, p. 212) É possível um retorno as coisas mesmas na medida que acontece a epoché dos valores, conceitos e preconceitos formados na realidade existencial. Baseado nesse princípio prescrito surge uma reflexão existencial que compreende o humano não como “coisa” pronta e finalizada, mas um ser em construção espiral, em configuração de constante feitura, ou seja, o ser em movimento.

Não se pode compreender a vida humana no mundo como estrutura incoerente, porque nenhum ser humano é incoerente! Como assim? Explico! O Humano sendo no mundo não é só, mais é parte-todo da amplitude de uma amplitude de escolhas particulares que obviamente dispõe de consequências, porém em contrapartida, o mesmo humano está inserido num contexto de escolhas aprazadas por outrem, que nem sempre correspondem suas escolhas. A partir daí inicia-se o efeito de não ser, para ser quem não se é. Portanto, nenhum ser humano é incoerente, mas expressão de um contexto. Então, pergunta-se? O ser humano não é dono de suas escolhas? Digo, não sozinho, não isolado, e muito menos fora do campo existencial, (descontextualizado) é preciso considerar-se o movimento. A primazia da beleza de ser, é o apolíneo que dá sentido ao mundo em construção, uma obra iniciada no passado, vivido no presente e projetada para o futuro, uma arte inacabável e inesgotável, ainda bem, pois é para além de si, para si, e para o outro (cosmos) por isso, é um equívoco percebe-lo como fragmentado, (caos) que sua configuração é repleno em possibilidades que somente pode sê-las no mundo.

As marginalidades da existência é a lança devastadora da des-confirmação existencial que desacredita no corpo como lugar. O corpo que existe não é objeto mais lugar de encontros e desencontros, de feiuras e contemplações, de sorrisos e lágrimas, caminhos e descaminhos, atalhos e veredas. A marginalidade de quem sou é quando autorizo ao outro ser por mim, decidir por mim, não sendo quem se é. Quem sou compete somente a mim, o que é meu é meu e o que é do outro é do outro. Fazer essa reflexão exige muita humanidade, porque é necessário desprender de preconceitos e jogo de lógica modelados sob medidas particulares, deixa-las entre parênteses, fora da “forma” pronta. O universo do outro é um processo de construção no tempo e do tempo. No tempo cronológico e do tempo que diz respeito ao mundo particular de suas feituras é o que dá sentido à sua existência. O sujeito não é no mundo, pelo contrário, está sendo no mundo, quando é compreendido isso, surge a transformação da rotulação para a contemplação do sentido de ser no mundo. Contemplar é a coragem de olhar o outro com a janela da alma, no respeito as suas escolhas, e suas não escolhas diante da vida. Fazer essa reflexão parece utópica porque o universo predador da contemporaneidade requer a rapidez e a prontidão, fato esse que, não autoriza ao humano ser humano, é fado-o ser coisa. Isso para tudo! Marginalizam os afetos, o contato, por não suportar olhar aos bastidores da existência humana. O processo de tomada de consciência de quem se é no mundo (Awareness) é o retorno de si mesmo à contemplação da vida.

Como somos, sentimos, lidamos com o outro diz muito quem fomos nos tornando no processo de ser. Saber lidar com nossas emoções, sentimentos, marcas deixadas pelo tempo é audácia de olhar para si mesmo como sujeito. Quem disse que não pode ser mudado? não somos prontos, ainda há tempo de ser novo. Uma hora a maquiagem acaba e ficará somente o eu e o espelho da alma. Quem você é? Como você é? O que falaram que você é corresponde quem realmente você é? São reflexões libertadoras dos grilhões que impedem sermos. Não marginalize seus afetos e não abra mão ser você, simplesmente para atender demandas do outro. As escolhas e decisões do outro compete ao mundo de escolhas do outro. Deixar aparecer quem se é requer coragem fenomenológica de olhar para o aparente a nós com encantamento, com coragem de um ajustamento que seja criativo cheio de muito amor.

Como exigir que alguém seja outra pessoa baseado no universo de escolhas particulares? Ou como impor regras fundadas nas não escolhas da vida, ou seja, naquilo que escolheram por mim? Nem sempre escolhemos, muitas vezes escolhem pela gente e não damos conta disso e vivemos como sendo nós. Pense! Atualize-se!

Ricardo Moura
  • Ricardo Moura Estudante de Psicologia
  • Graduando em Psicologia pelo Centro Universitário Alves Faria. Atualmente trabalha na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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